CARTA AOS NOVOS CONTADORES

CARTA AOS NOVOS CONTADORES

4 de Abril de 2018

Fonte: REVISTA GESTÃO UNIVERSITÁRIA, 02/04/2018 – BELO HORIZONTE, MG
Nilton Facci (Professor no curso de Bacharel em Ciências Contábeis na Universidade Estadual de Maringá)
Gilmar Duarte (Empresário contábil e escritor)

Há muito tempo, desde quando ainda estava sentado nos bancos da Academia, exatamente como vocês agora, pensamos em escrever um texto sobre tudo aquilo que gostaríamos que me tivessem dito ao ingressar no curso de Bacharel em Ciências Contábeis, ou como alguns ainda denominam, Contabilidade e – obviamente – é também tudo o que queremos dizer a vocês que estão ingressando. Humildemente entendemos que, seja como for, é algo que deve e precisa ser lembrado e relembrado em todos as partes, semestres ou nas disciplinas existentes.
Vamos lá. Já nas primeiras disciplinas, que temos que descontruir certas ideias ao ingressar no curso. A primeira delas é a de que sairemos do curso sabendo tudo sobre Contabilidade. Ninguém vai sair do curso de Contabilidade aprendendo Contabilidade em todos os seus aspectos. De um lado, porque, diferente do ensino fundamental e do ensino médio, em que nos mostram todos os conhecimentos como prontos e acabados; e facilmente acessíveis – a Contabilidade é um saber inacabado, dinâmico, rico e vivo, a ser construído paulatinamente, não somente decorrente de mudanças nas normas contábeis, mas também em leis que abordam aspectos empresariais, tributários e previdenciários, que mudam constantemente. Mesmo que as normas contábeis e legislações citadas não sofressem alterações, é importante perceber que outros entendimentos são produzidos. De outro, porque é, senão mesmo impossível, ao menos muito pouco provável, que uma só pessoa, numa só existência, consiga apreender todo o corpo de normas, leis e entendimentos, não só em suas modificações constante, como já dito, mas em face da abrangência de situações que cada norma busca compreender, assim como as dinâmicas nos ramos de atividades já existentes, e outros que surgem a todo momento. Por outro lado, mesmo com mudanças nas normas contábeis, é preciso destacar que vários aspectos teóricos ainda são os mesmos desenvolvidos, inicialmente, nos anos de 1700, por parte de pesquisadores, principalmente, italianos. Neste sentido, um dos maiores mitos é afirmar que pesquisadores com título de doutores sabem tudo da Ciência Contábil. Acreditem, eles não conhecem tudo. Com certeza conhecem vários aspectos, mas nunca tudo. Vivemos numa imensurável floresta empresarial que necessita do apoio da Ciência Contábil como forma de produzir comunicações com o mundo. Assim como várias ciências, a Ciência Contábil nasce da necessidade de compreender como determinadas relações comerciais estão se realizando. Assim, a Contabilidade não tem o objetivo de adivinhar como essas relações comerciais serão realizadas, mas, sem esse conhecimento, a busca por soluções em situações que podem provocar perdas patrimoniais fica mais difícil.
Vejamos: é sabido que a Contabilidade nasce dos fatos. Isto quer dizer que, a realidade é sobremaneira mais rica, mais inovadora, incomensuravelmente mais surpreendente e mais ampla que a Contabilidade. A Ciência Contábil está sempre a correr atrás das situações patrimoniais e sociais novas na tentativa de compreendê-las. Um belo dia, por exemplo, surge a internet (ou outra novidade social, tecnológica, etc.), e a Contabilidade se vê obrigada a compreender, mensurar, registrar, controlar, elaborar relatórios que buscam estar na mesma dinâmica desse novo contexto. Nossas normas de dez, vinte, trinta, quarenta anos ou mais, mesmo com alguma subjetividade da norma (hábil a ser aplicada a toda a uma gama de casos singulares) e mesmo com toda a capacidade dos cientistas contábeis, eles não teriam (nem têm) possibilidade qualquer de prever a engenhosidade inventiva da vida e do mundo social. Assim, diria: tudo o que uma faculdade ou curso de Contabilidade vai poder lhes ofertar é uma estrutura, arcabouço, um esqueleto que vocês terão o trabalho de preencher durante toda a vida e cujo corpo nunca estará completo. E essa é a segunda ideia a ser desconstruída: ilusão comum presente em quase todo o estudante iniciante na área, a de que irão se formar e aí finalmente vão parar de estudar. Ledo engano: talvez seja aí que comecem a estudar mais ainda! Portanto, abandonem isso desde já, pois uma vez escolhido o caminho da Contabilidade é ter escolhido o caminho de estudar por toda a vida.
E estudar Contabilidade, é preciso dizer, é ter diante de si pelo menos três vias: uma é a do estudo para concursos, com resolução de questões, análise das principais instituições elaboradoras, o aprendizado de formas das provas, o enfoque nos assuntos mais cobrados, etc.; outra é a do estudo para a prática da profissão contábil, voltado para compreender as formas de identificação do fato contábil, da mensuração, isto é, da expressão em moeda corrente do país, a redação dos relatórios formais definidos pelas normas e legislações específicas, e também de relatórios internos características a cada empresa. Não podemos deixar de mencionar que um aspecto ainda muito exigido para os profissionais contábeis são os procedimentos para identificação, cálculo e informações tributárias, trabalhistas e previdenciárias diariamente impostas pelos governos municipal, estadual e federal. Por último há o estudo para a vida acadêmica, focando doutrinas e teorias, nacionais e estrangeiras, voltado para as bases teóricas que fundamentam a Contabilidade existente no mundo, traçando rumos para especializações, mestrados e doutorados vida afora. Vocês precisam escolher apenas um desses caminhos? Não mesmo. Mas que devem ter ciência de que eles existem desde já, para que possam, mais adiante, convenientemente melhor optar. E o bom profissional consegue transitar entre eles, ou dois deles pelo menos: ter uma carreira acadêmica e profissional; estudar para concursos e procurar uma titulação que lhe garanta melhor colocação nos concursos; contador e ser professor; etc.

Afora isso, é preciso repetir: nada é certo e preciso na Contabilidade, em tudo pairam divergências, tudo se discute, há vários entendimentos. E não se pede que escolham uma, tampouco que sigam a cabeça do professor, mas que, em cada ramo ou área da Contabilidade, construam suas próprias concepções, optem pelas teorias que julguem mais corretas e com as quais mais se afinem, e até que mesclem doutrinas, teorias e entendimentos – enfim, que criem o próprio caminho, é o desafio que lhes é feito, de já, ao iniciar. Não estamos no contexto das ciências exatas, nada aqui é certo, preciso, definitivo. Assim, não só por isso, mas por todo o contexto explicitado acima, é preciso nutrir uma noção de profunda humildade diante desse reconhecimento: aprendemos sempre que ensinamos e ensinamos sempre que aprendemos. Sigamos então.
Cabe dizer ainda que a Contabilidade é una e que a divisão em matérias é meramente didática. Quando estudarem registros/lançamentos contábeis, em Contabilidade Geral, ou Inicial, ou Básica por exemplo, vão observar que os conceitos que direcionam são os mesmos a serem observados em todo o curso. Em Contabilidade II, ou Intermediária, o aluno estuda fatos que não foram apresentados, analisados e discutidos em Contabilidade Geral, mas é preciso ter a certeza de que sem a base apresentada em Contabilidade Geral, qualquer novidade será de difícil compreensão; em Contabilidade Avançada, vários aspectos específicos existentes em ramos de atividades diferentes daqueles vistos nas disciplinas anteriores; e em Contabilidade Específica, ou Tópicos Especiais em Contabilidade, ou mesmo em disciplinas que abordam aspectos específicos, é provável que os acadêmicos nem sequer se dão conta de que está estudando a mesmíssima matéria, apenas com um enfoque diferente, além de conhecer também situações que ocorrem nos diversos ramos de atividades. Enfim, registros contábeis básicos, e aqueles que devem ser compreendidos conforme ramos específicos de atividades empresariais estão intimamente interligados. Do mesmo modo, não se concebe o aluno gostar de Contabilidade Geral ou de Contabilidade de Custos, ou outra qualquer, e não gostar de disciplinas nas áreas da Administração, da Economia, da Matemática e de Pesquisa Científica, ou ainda de Sociologia. É preciso que o acadêmico perceba que a Contabilidade, sozinha, não resolve problemas que ocorrem nas empresas. São necessários outros conhecimentos. Falta essa visão de que as muitas contabilidades são, na verdade, uma unidade e que só as estudamos isoladamente para fins didáticos, as matérias em si sendo meras divisões facilitadoras do ensino e não divisões reais dentro de um ramo do saber.
Caríssimos, cabe dizer ainda que o primeiro contato com a Contabilidade nos faz logo ver que há um abismo entre algumas das ideias que são apresentadas por parte da sociedade. Algumas pessoas veem a profissão contábil por meio de conversas com alguns empresários, e, para esses, o Contador é o profissional que resolve problemas com a prefeitura, com fiscais de tributos, que emite determinados documentos burocráticos, e até ajuda em situações de aposentadoria. Nesse contexto, alguns parecem defender, por exemplo, ideias como a redução do tempo do curso, já que essas atividades podem ser aprendidas sem a necessidade de curso superior. Mas aí lhes pergunto: para vocês, o que é realmente a Ciência Contábil? Para qual finalidade ela realmente existe? Algumas das pessoas mais ricas do mundo já afirmaram que “a Contabilidade é a voz das empresas”. É preciso destacar também que quando a Contabilidade busca identificar, compreender, mensurar, controlar e demonstrar patrimônio, também são aqueles definidos como públicos, isto é, o patrimônio gerido por uma prefeitura, por algum Estado ou mesmo do Governo Federal. É por meio da Contabilidade que as empresas, ou organizações, buscam melhores formas de comunicações com a sociedade, com o mundo todo. Evidente que não é objetivo da Contabilidade resolver todos os problemas que existem nas empresas. Mas sem ela, as soluções são mais difíceis. Outro fator importante para o mundo empresarial é desenvolver formas para aumentar e melhorar a obtenção de lucros, já que nenhuma empresa é constituída sem que tenha por objetivo a obtenção de lucros. É por meio desse lucro que os empresários/investidores poderão aumentar seu patrimônio. Assim, mesmo não sendo esse o único objetivo da Contabilidade, sem ela nenhuma empresa, ou empresário/investidor, saberá se a empresa obteve lucros. E se não obteve, o que pode ter provocado essa situação. Também sem a Contabilidade qualquer proprietário de patrimônio não conhecerá o tamanho, os resultados e as possibilidades empresariais do seu patrimônio. Também não saberá como efetuar relações comerciais que protejam e aumentem o patrimônio. É preciso destacar, novamente, que um dos objetivos da Contabilidade é desenvolver mecanismos que permitam determinadas proteções ao patrimonial, das várias formas que ele possa ser prejudicado. É com a existência do patrimônio e com as formas de relações comerciais, que esse mesmo patrimônio poderá aumentar. Com esse aumento, as empresas terão necessidades de aumentar a quantidade de pessoas que atuam em suas atividades, assim, a Contabilidade estará cumprindo mais um de seus objetivos, que é contribuir para que esse patrimônio alcance resultados sociais, ao proporcionar mais empregos; a geração de mais lucros aos investidores; o aumento no recolhimento de tributos, o que permite ao Estado melhores condições para atender as necessidades da sociedade. Mas a Contabilidade não é útil somente para empresas que visam lucros. Talvez até mais importante para as chamadas Organizações Não Governamentais (ONGs). Sem a Contabilidade, essas organizações, com certeza, terão maiores dificuldades em alcançar seus objetivos sociais.
Por último: se vocês dedicaram mais da metade do tempo necessário para concluir uma atividade, sigam com ela até o fim, pois. Pensamos que já terá sido tempo demais dedicado a algo para se jogar fora. O curso de Contabilidade, mesmo sendo em quatro ou cinco anos, então, quem porventura pense em desistir do curso, tem até o segundo ou terceiro ano para fazê-lo. Após esse momento, cremos, já não caberia mais. Já terá dedicado tempo demais a algo para renunciar. No que nos aconselhamos: conclua. Com certeza, os conhecimentos obtidos no curso serão úteis para qualquer caminho que desejar seguir. Cremos ter dado muitos motivos nas linhas acima para continuarem no curso e recomendamos mesmo que todo cidadão curse Contabilidade, nem que seja para ter um diploma na parede, como se diz. O curso de Contabilidade nos abriu horizontes, permitindo aprimorarmos a escrita, aproximando-nos de várias outras ciências, fez nosso pensar mais amplo, abriu um leque de profissões das quais pelos menos três abraçamos e nos trouxe tantas boas coisas que nem conseguimos enumerá-las. Mas, como alguns já nos procuraram na dúvida se o curso é sua real vocação, repetimos: faça, mesmo que não seja. A Contabilidade deveria ser obrigatória também para a formação política do cidadão; deveria ser para todas as formações um saber prévio e necessário, porque é essencial à vida em sociedade. Os que usurpam nosso país, assim o fazem por ainda existir uma parte da sociedade brasileira que não conhece aspectos contábeis e políticos. Assim, é por meio da educação e do conhecimento que podemos exercer nossos direitos e, também, contribuir para a sociedade. A todos que ingressam nesse curso, lembrem-se sempre: sem Contabilidade não existe Cidadania. Sem Cidadania não existe Democracia. Sem Democracia não existe o Bem Comum. Ainda é necessário destacar que, sem Contabilidade, qualquer governo terá enormes dificuldades em atender, com as qualidades necessárias, as necessidades da sociedade. Contribuir com o atendimento dessas necessidades que é a grande responsabilidade da Contabilidade e das pessoas que a adotam como ação de vida e ação profissional. Nessas ações, para que possamos contribuir, é necessário que adotemos como princípio de vida, de profissão, as normas de éticas de cidadania e profissional. Que todos possam aproveitar a amplitude dos conhecimentos proporcionados pela Ciência Contábil, e que sejam, já a partir desse momento, pessoas mais úteis à sociedade.